Alien, de Dan O’Bannon

O crítico de cinema do El País compara desfavoravelmente o primeiro “Alien” com o recente “Alien: Covenant”, ambos de Ridley Scott. Mas… e se o primeiro Alien não fosse **de* Ridley Scott e sim do seu roteirista, Dan O’Bannon?

O primeiro Alien é acima de tudo um filme de suspense extraordinariamente bem escrito. Algumas das suas decisões narrativas mais importantes, como a forma como o protagonismo de Ripley aparece relativamente tarde no filme, a precisa economia de informação, a maneira como a trama vai nos colocando no lugar de Ripley (sabemos o que ela sabe e nada mais), são decisões estruturais, de roteiro. São dramaturgia.

Carlos Boyero, o crítico, observa que, em Alien: Covenant, “ao contrário do Alien original, aqui há muita conversa e pouca ação.” Quem fez do primeiro Alien um filme de pouco diálogo, conduzido por uma trama praticamente minimalista, um esconde-esconde sombrio no qual a cada momento cai alguém, até restar, sozinha com seu gato, de calcinha e camiseta, a intrépida tenente Ripley? Ridley Scott, responderia a esmagadora maioria dos críticos. Mas e se…

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Masterclass: o roteirista de séries de TV

Este sábado, 10 de dezembro, vou apresentar uma Masterclass sobre o trabalho do roteirista numa série de TV, com foco na maneira como as coisas se dão na realidade brasileira. Baseada essencialmente na minha experiência no desenvolvimento de séries, a palestra irá cobrir temas importantes para quem está entrando ou deseja entrar nesse mercado.

Como funciona uma sala de roteiristas? Qual é a dinâmica criativa nesse processo? O que se espera do roteirista numa equipe de desenvolvimento? O que se espera de um roteirista-chefe?

E quanto ao mercado? como entrar nele? o que ele espera do roteirista recém-chegado? o que ele espera de quem tem projetos de séries originais?

A masterclass vai acontecer no Centro Cultural Barco, em Pinheiros, São Paulo. Informações complementares e inscrições pelo site.

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O endereço de Peggy Olson e uma pergunta que o espectador nunca faz

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No final do primeiro episódio de Mad Men, um embriagado Pete Campbell bate na porta da casa de Peggy Olson. Uma tremenda surpresa, nada no episódio nos dá uma pista de que aquilo poderia acontecer. Peggy acaba de viver seu primeiro dia no escritório da Sterling & Cooper. Pete vem da sua despedida de solteiro, vai se casar em dois dias. Pete aparece na casa dela do nada e nem eu, nem você e nem ninguém que assistiu esse episódio se pergunta “como ele arranjou o endereço dela?”.

Ou você até pode ter se perguntando como ele conseguiu o endereço, mas você deixou de gostar do episódio, deixou de gostar e se envolver com aquela excelente cena porque não viu Pete pedir a Joan ou subornar uma telefonista ou remexer em algum rolodex para achar o o endereço de Peggy? Claro que não. Se isso te incomodou a esse ponto, é porque você já não estava comprando a série.

Um passo importantíssimo para aprender a escrever bons roteiros é entender como os bons roteiros são feitos, e um caminho para isso passa por analisar cuidadosamente as escolhas dos roteiristas. Não só o que eles escolhem mostrar, mas (talvez até mais) o que eles escolhem não mostrar. Aquilo que se chama, em literatura, “close reading”, que é ler uma obra atento as escolhas do autor e como elas afetam o sentido do que se lê, é algo que o roteirista precisa fazer o tempo inteiro com o que ele assiste e lê.

O espectador não quer saber como os personagens dão cada pequeno passo no caminho das coisas que eles fazem. Eu nunca vi, em nenhuma série ou filme minimamente qualificado, alguém perder tempo procurando um endereço. E nunca senti falta e nem nunca ouvi falar de alguém incomodado com isso.

Este exemplo, do endereço de Peggy Olson, é um entre um milhão possíveis. Praticamente qualquer bom roteiro vai ser cheio de coisas assim. E há um motivo para isso:  O espectador não quer as partes chatas, aquelas que ele teria que viver porque não há um bom roteirista na sua vida escrevendo elipses que o transportem de um momento importante ao outro. O espectador quer se envolver com o que os personagens fazem, e não se informar sobre eles, confirmar a veracidade dos seus passos. O espectador não é um fiscal.

Começa semana que vem meu curso Séries de TV: Criação e Projeto. Inscrições aqui.

 

 

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Está na hora da sua ideia virar projeto

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Falta muito pouco para começar meu próximo curso em São Paulo e em breve as inscrições vão se encerrar. Você já fez a sua? O curso Séries de TV: Criação e Projeto é uma oficina que apresenta métodos e procedimentos concretos e práticos para criar séries de TV e projetos para levar aos canais e produtoras. Focado na realidade do mercado brasileiro e com análise dos projetos individuais dos alunos. Você é roteirista, dramaturgo, diretor, ator ou produtor, ou simplesmente alguém que tem uma ideia para uma série de TV mas ainda não fez dessa ideia um projeto concreto? está na hora de fazer. Ficou alguma dúvida? veja o detalhamento do curso ou me escreva um email!

A inscrição via boleto bancário ou cartões de crédito pode ser feita pela plataforma EventBrite ou diretamente comigo.

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Para Criar um Projeto de Série: curso em maio, em São Paulo

Cinco noites  em maio para mergulhar no processo de criação de uma série de TV. Esta é a proposta do curso “Séries de TV: Criação e Projeto” que vou dar na House of Learning, em Pinheiros, São Paulo.

Como se cria uma série de TV? No curso, vou apresentar as principais dificuldades e as principais técnicas para criar o universo de uma série, seus personagens, seus conflitos e suas principais tramas, até chegar a um projeto para apresentação a canais de TV, produtoras e editais.

Também são feitas análises de episódios de séries importantes, sempre visando entender como a criação é feita, como aprender com o que assistimos para criar projetos melhores.

Importante: o foco do curso é na realidade do audiovisual brasileiro, em termos de produção e possibilidades de realização. Os participantes do curso terão acesso a um profissional ativo no mercado, com conhecimento da dinâmica real dos canais e das produtoras e das possibilidades de inserção de roteiristas e diretores nesse mercado.

Ao final do curso, os participantes terão a oportunidade de apresentar uma proposta resumidade de série, para avaliação pelo professor.

Detalhamento

A partir de análise de séries existentes e da apresentação de técnicas específicas para construção do universo ficcional de uma série (drama ou comédia), o curso se propõe preparar os participantes para criar seus próprios projetos. Principais aspectos abordados:

– o que faz de uma série, uma série: as características do formato série e como aplicá-las.
– O que faz de uma boa série, uma boa série: ensino de técnica de análise das séries de qualidade, visando aprender com elas.
– Os elementos da série: argumento, perfis de personagem, “bíblia”, tudo que compõe o mundo da série.
– O que faz um bom personagem de série: técnicas de desenvolvimento de personagem, dinâmica do protagonista com demais personagens, redes de relações entre personagens.
– A construção do protagonista. E como criar a partir de um protagonista.
– séries e processo colaborativo: apresentação de ténicas de trabalho coletivo para criação de séries (“writer’s room).
– como deve ser um projeto de série: os elementos que um canal, um edital ou uma produtora espera ver num bom projeto de série.
– o mercado: análise da situação do mercado de séries no Brasil e das oportunidades para novos criadores, roteiristas e projetos.

Serviço:
de 4 de maio a 1 de junho de 2016
às 4as-feiras das 19h30 às 22h
total de 5 aulas
Local: House of Learning. Rua Doutor Virgilio de Carvalho Pinto, 69, Pinheiros, São Paulo

custo: R$ 750,00
pagamento por cartão de crédito ou boleto bancário
inscrições através do EventBrite. Clique aqui para se inscrever.
ou entre em contato pelo email davidfm@gmail.com

 

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Para escrever um romance

Você quer escrever um romance? está escrevendo? ótimo, agora imagina que você pode desenvolver esse seu romance com acompanhamento de uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas? Pois é exatamente isso o que oferece o curso “Como Escrever um Romance“, com Carola Saavedra, no centro Cultural Barco, em São Paulo.

Mais do que um curso, trata-se de uma verdadeira consultoria, em que você terá suas páginas lidas e comentadas enquanto aprende sobre questões criativas e técnicas cruciais para todo escritor.

foto-carola-2-350x249Carola Saavedra é autora dos romances Toda terça (2007), Flores azuis (2008, eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), Paisagem com dromedário (2010, prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e O inventário das coisas ausentes (2014), todos publicados pela Companhia das Letras. Seus livros estão publicados em inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

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The Walking Dead nos Ensina uma Lição

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Ninguém prestou muita atenção quando, numa palestra no Rio uns dois anos atrás, Gale Anne Hurd, produtora executiva de The Walking Dead, explicou que uma das suas maiores preocupações no set era evitar que um diretor desse qualquer traço de comicidade a qualquer cena de qualquer episódio.  Ela também falou dos cuidados para dar uma textura de realidade à serie: tudo filmado em película,  nada de efeitos de computador,  “se é preciso incendiar uma casa, incendiamos uma casa”.

A razão desses cuidados,  como ela explicou, é não permitir nenhuma fissura na sensação de realidade necessária para a série funcionar para o seu público.  Evitar o humor é importante porque, na verdade, nada é mais fácil que aqueles zumbis virarem galhofa. Para que o público leve a sério, quem faz a série tem que levar muito a sério.

Isso me fez pensar no famoso “alívio comico” e em outras tendências a fazer de cada série uma espécie de trivial variado, que a gente percebe nos nossos projetos, brasileiros. Falo tanto do que muitas vezes assistimos no ar quanto do que me chega na forma de projetos. Falo também do próprio processo,  entre roteiristas, diretores, produtores e canais. É muito forte uma tendência a querer temperar a dramaturgia: podia ter um pouco de humor, está faltando um pouco de romance,  uma pitadinha de sexo?

The Walking Dead é a série de maior sucesso da história das TV a cabo.  E vista por 25 milhões de pessoas a cada semana,  só nos Estados Unidos. Quem gosta, não perde,  roi as unhas até o início da próxima temporada.

Mas há muita gente que não vê e, pior, não veria The Walking Dead de jeito nenhum.  Gente que não topa história de zumbi,  seja por achar ridículo, por ter medo ou as duas coisas.  A verdade é que a série campeã de audiência provavelmente é também uma super campeã de rejeição.

E o que os criadores da série fazem a respeito dessa rejeição? Nada.  Eles não fazem nada. Eles não mudam a série para tentar agradar quem não gosta.  Pelo contrário,  eles apostam tudo naquilo que agrada intensamente quem é realmente o público da série.  Eles não traem o projeto artístico da série.

Algumas séries podem ter momentos de humor.  Algumas tem que ter esses momentos. Outras não devem,  não podem ter.  E o que define isso? O efeito que se deseja.  Se você busca tensão,  muita tensão, você não deve aliviar nada. Se você quer o seu espectador mergulhado no universo da série,  emocionalmente,  talvez você não precise de humor.  Cada caso é um caso.  Qual é o seu caso?

O contrário também vale.  Quando é que um personagem de comédia deve ser tridimensional?  Não havia nada de tridimensional em Seinfeld,  Elaine,  Costanza e Kramer.  Isso não impediu Seinfeld de fazer mais de um bilhão de dólares e, ao mesmo tempo, ser considerada uma série inteligente,  brilhante até.  Já os personagens de Friends têm uma humanidade,  não são tão chapados assim.  Pois aí está outra série de um bilhão de dólares.  Qual é a receita?

Personagens complexos, tanto quanto alívio cômico, tanto quanto arco de temporada, tanto quanto qualquer outro elemento da dramaturgia, pode-se ter ou não,  e a única receita certa é: entender a essência do seu projeto,  aprofundar-se nele,  e deixar que ele te diga se ali cabe isso ou aquilo.

A lição de The Walking Dead talvez seja a de que não desagradar ninguém é um caminho que te leva longe, bem longe do sucesso. Porque uma série tem que ser muito legal para alguém, e não “legalzinha” para um monte de gente. Porque esse monte de gente não quer “legalzinho” e vai ver mesmo o que for muito legal para cada um.

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